Foco nas oportunidades (Parte VII: A barata na cozinha e os riscos)

Seu risco

Um dia desses, descansava depois de um dia de trabalho no sofá de casa, quando ouvi um grito vindo da cozinha. Uma barata! Gritou minha mãe após alguns golpes com o chinelo. Imediatamente foi aberto um inquérito entre os familiares para identificar as causas da invasão. Quem deixou a porta aberta? De onde esse bicho veio? Será que passou pelo armário? Ao ver que a situação estava controlada, sai dizendo que somente me chamassem quando entrasse um dinossauro.

Piada a parte, interpreto a situação como um conflito de interesses. A cozinha tem uma certa relevância para a sobrevivência dentro de uma residência. Independente do seu tamanho ou dos recursos disponíveis, são geralmente utilizadas no armazenamento e preparo de alimentos. Devemos considerar que essas características são idéias para o aparecimento de animais indesejados. Na verdade, uma cozinha é tudo que uma barata sempre sonhou. Isso me permite concluir que esse fato é algo bastante previsível.

Gerenciado as suas idéias

Essa pequena história, de embasamento técnico “profundo”, me faz refletir sobre inúmeros casos em que os negócios não dão certo por situações, muitas vezes, corriqueiras. Muitas vezes, o empresário se sente incapaz quando se vê diante de problemas ou oportunidades não previstas. Nessa série já abordamos a relação da qualidade com a motivação, o relacionamento com os clientes, a definição da viabilidade, a cautela entre o sucesso e o fracasso, a utilização racional da tecnologia e a importância de se estudar o comportamento da sociedade. Um dos temas que acredito ser essencial de ser explorado pelo empreendedor é o gerenciamento de riscos.

Não precisa ser um gerente de projetos de formação para visualizar a importância dessa disciplina. Muitos se dizem práticos, objetivos e, às vezes, fazem questão de deixar de lado os estudos e as técnicas que pré-julgam como burocracia, mas, certamente, poderiam oferecer mais solidez as ações pretendidas. O interessante é que todos sabem da existência de desafios que precisarão ser enfrentados durante o desenvolvimento de suas idéias. Mesmo assim, poucos são aqueles que se mostram cautelosos e refletem, com antecedência, as suas idéias.

Operação complexa

Outro dia estava acompanhando um programa no Discovery Channel onde era detalhado o trabalho dos profissionais da NASA antes do lançamento de um ônibus espacial.  Até o seu lançamento são dois dias de intensas atividades de análise em todos os equipamentos e condições climáticas. Qualquer material ou cenário não conforme as especificações consideradas ideais resultam no cancelamento imediato das operações. Assim que o reparo é concluído, a bateria de exames recomeça do zero. Ainda assim, acidentes acontecem.

Talvez a sua iniciativa não tenha a complexidade de um ônibus espacial, mas acredito que, salvo as devidas proporções, a expectativa de sucesso é a mesma. Muitas vezes, o empreendedor despeja todos os seus recursos e as suas esperanças nas suas idéias e as certezas de retorno o fazem crer na possibilidade de investir cada vez mais. Talvez, por isso, não seja tão incomum encontrar pessoas que perderam até o que já haviam conquistado após a falência de seus projetos.

A gerência da sua ousadia

A análise dos riscos não traz garantia de sucesso, mas orienta uma disciplina que pode oferecer maior sustentabilidade nas ações e, principalmente, define um limite seguro dos investimentos. Vale lembrar que essa disciplina não vem para inibir possíveis aventuras, mas oferecer um limite sólido que garanta a viabilidade e mantenha a iniciativa saudável. Vamos dizer que você pode cair, mas ainda terá forças para se levantar.

A minha intenção está longe de mostrar conceitos técnicos do gerenciamento de risco. Mesmo assim, convido o leitor a aprofundar os seus conhecimentos com algumas leituras sobre o assunto. Acredito que, nesse momento, é mais interessante abordamos o tema com menos critérios ou estudos acadêmicos complexos.

Em primeiro lugar, vamos definir risco como a probabilidade de um evento. Aliás, esse último é o termo mais apropriado para um acontecimento em si. Ou seja, todo carro possui o risco de ter um dos seus pneus furado. Porém, você precisará sujar a mão de graxa quando esse evento acontecer. Por fim, vale considerar que esse “evento” pode trazer malefícios ou até benefícios. Assim, concluímos que você gerencia os riscos de forma a prevenir os eventos negativos e tirar o maior proveito dos considerados positivos.

Tabela de riscos

Na prática, a primeira coisa que você precisará fazer é listar os possíveis eventos. Para facilitar, procure classificar pela natureza. Por exemplo, para a classificação finanças, poderia ser analisada a probabilidade de multas, falta de recursos ou até ganho de prêmios. Há outras classificações clássicas como motivações políticas, recursos-humanos ou riscos relacionados as definições do projetos como o cronograma.

Para cada risco listado, defina ações que evitarão ou facilitarão a probabilidade do evento e outra com ações de contingência para ser acionada na sua ocorrência, ou seja, o que você deverá fazer para minimizar o impacto causado ou maximizar seus ganhos.

Por fim, você ainda pode atribuir uma nota (1, 3 ou 5 para baixa, média e alta respectivamente, por exemplo), ao seu critério, referente a probabilidade do evento ocorrer e, ainda, o impacto, custo ou ganho. Multiplicando o primeiro pelo segundo, você terá um índice de risco. Classificando em ordem decrescente, você listará os principais riscos em ordem de prioridade. Mesmo assim, nunca se esqueça de verificar e reclassificar a sua lista com frequencia. Principalmente antes de tomar decisões importantes.

Administrando os impactos

Em minha opinião, gerenciar os riscos é mais evidente na natureza humana e em sua intuição social do que relacionado a uma disciplina do gerenciamento de projeto. É bem verdade que há muitos outros detalhes e inúmeras técnicas eficientes para se buscar resultados mais sólidos durante o projetos. Contudo, o objetivo desse artigo está em demostrar sua imensa importância em contrapartida de uma complexidade relativamente pequena. A necessidade de se aprofundar nessa questão está intimamente ligada aos impactos associados ao riscos e as ambições de cada projeto, mas, seja como for, esse sentimento precisa permanecer presente para evitar surpresas que possam pôr tudo a perder.

Eu costumo dizer que ser um bom profissional é ter a capacidade de solucionar problemas a favor dos seus objetivos. Isso induz dizer que tudo que almejamos envolve algum tipo de desafio. Para que obtenhamos sucesso durante o nosso caminho, temos que ter a habilidade de jogarmos conforme as regras impostas pela sociedade. A verdade é que devemos aceitar a realidade da forma que ela se apresenta e assumir os seus riscos diretos e indiretos. Pode parecer desnecessário, mas muitas pessoas esquecem que equipamentos quebram, pessoas adoecem, os recursos não são ilimitados, ou seja, nem sempre as coisas acontecem como desejamos. Estar atento e preparado pode ser um diferencial importante durante dias de crise.

O risco do fim do mundo

Essa reflexão pode trazer inúmeras idéias para o seu dia-a-dia, mas gostaria de alertar que o dinossauro da cozinha pode ser contornado por um asteróide de bom senso. Não adianta você pensar em criar ações para conter os efeitos de uma guerra, desastres naturais, terrorismo, bomba atômica, epidemias ou invasão alienígenas. Se deixar a cabeça navegar pelo universo de possibilidades, verá que essa tarefa ficará um pouco indigesta. Sempre haverá inúmeras situações em que você não encontrará ações de contorno. Pode parecer piada, mas, para essas situações, a única solução será torcer para que nunca aconteçam. Tente ser o mais objetivo possível e concentre os esforços àquelas consideradas eminentes e relevantes a atividade fim do negócio. Mas, é claro que, se você quiser preservar fundos para aumentar a solidez do seu negócio e construir um fôlego para eventuais momentos de crises, lembro que essa simples preocupação, muito mais que salvou empresas em momentos da nossa história, mas as colocaram no topo ao se aproveitarem, principalmente, da decadência de suas rivais não tão atentas a essas possibilidades.

A tecnologia da informação é a ciência que procura representar as informações do mundo em formato digital, processando e armazenando grandes volumes em segurança e mantendo sua confiabilidade. É evidente a importância desses dados para muitas empresas. Analistas e técnicos debatem inúmeras ações para que esses mantenham suas características diante a qualquer “evento” digital ou até físico. O que seria para uma empresa ver todos os seus servidores serem destruídos em um incêndio ou até perdidos após a falha de um equipamento qualquer? Para isso, são realizadas cópias, os chamados backups.

Quando o gerenciamento falha

Algumas empresas possuem um grande volume de transações e as informações se transformam constantemente. Assim, é preciso que essa cópia seja imediata, em tempo real, a medida que são alteradas. Um fato bastante inusitado aconteceu durante o ataque as torres gêmeas em Nova York. O ato terrorista, do dia 11 de setembro de 2001, utilizou dois aviões para derrubar o símbolo do capitalismo. Muitas empresas perderam seus dados com os ataques. Mas, o que se achava que não podia ser pior, outras faliram imediatamente. Mesmo aquelas que sequer mantinham escritórios nos prédios. Isso aconteceu porque era comum as empresas de tecnologia usarem uma torre como base de dados principal e a outra como backup. Como as duas caíram no mesmo dia, muitas empresas perderam todos os seus dados, suas informações vitais para o funcionamento. Imagine uma empresa com know-how em alguma atividade, que mantinha dados histórico sobre suas atividades armazenadas por anos, se tornar uma simples novata e perder todos os contratos, muitos digitalizados, de um dia para o outro. Uma situação de difícil previsibilidade.

Proteja as suas idéias

Praticamos o gerenciamento de riscos em nossas vidas todos os dias. Seja quando vamos decidir o que comer ou qual xampu utilizar, estamos sempre optando pelo melhor caminho, ou aquele que mais nos trouxer resultados positivos. Simplesmente é preciso dar a devida importância e seriedade a essa atividade quando estamos envolvidos em projetos e iniciativas que envolvem algum tipo de risco. Por mais criativas e inovadoras que possa ser a sua idéia, ela enfrentará os desafios naturais impostos pelo mercado, pela política, pela economia e pela sociedade. Se você realmente tem amor e preza pelo sucesso de suas idéias, que tal se prevenir adequadamente? Sabiamente, quando estiver na cozinha, não mais se assustará com as baratas que eventualmente estiver a passeio.

Continue lendo: Sob nova direção

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Postado por Rodrigo Seco em 27/05/2010
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1 Comentário to Foco nas oportunidades (Parte VII: A barata na cozinha e os riscos)

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