Excesso de informações provocado pelo avanço da tecnologia altera capacidade de concentração

O uso constante da tecnologia muda o comportamento do cérebro e faz informações importantes serem descartadas / Foto: reprodução

SÃO FRANCISCO – Quando um dos mais importantes e-mails da vida de Kord Campbell chegou à sua caixa de mensagens, simplesmente passou despercebido, Não por um ou dois dias, mas por 12 dias. Ele finalmente viu o recado que uma grande companhia estava interessada em comprar um programa que ele havia desenvolvido.

- Meu Deus, como é difícil me perdoar por não ter visto antes um e-mail como este – disse ele em entrevista ao “New York Times“.

O e-mail não foi visto apesar de Campbell estar sempre ligado em duas telas de computador, dormir ao lado de seu iPhone, receber mensagens o tempo inteiro, SMS, participar de chats e ser bombardeado o tempo todo por informações variadas.

Depois de se desculpar pela falha e receber seu US$ 1,3 milhão pelo projeto, Campbell continua sofrendo com o excesso de informações que ele e a maioria das pessoas que vivem o dia a dia contemporâneo recebem. Mesmo depois de desligar as máquinas, ele se esquece de combinados para o jantar e tem dificuldades em focar na sua família. Sua mulher, Brenda, reclama:

- Parece que ele não consegue viver momento algum plenamente.

A superestimulação provoca excitação – e gera a produção de dopamina – que os pesquisadores dizem que pode ser viciante. Na sua ausência, as pessoas sentem-se entediadas

Segundo cientistas, o que acontece com Campbell ocorre com quase todos nós que vivemos os tempos modernos, checando e-mails o tempo todo, recebendo ligações e torpedos de celulares, e sendo abastecido de novidades das mais diferentes fontes. Essa sobrecarga de informações pode mudar a maneira como as pessoas pensam e se comportam, dizem os cientistas. Eles argumentam que nossa habilidade para focar está sendo minada pelo excesso de informações.

O que acaba acontecendo é que as pessoas têm o impulso primitivo de responder às oportunidades imediatas e às ameaças. A superestimulação provoca excitação – e gera a produção de dopamina – que os pesquisadores dizem que pode ser viciante. Na sua ausência, as pessoas sentem-se entediadas.

Jogue o jogo criado por cientistas de Standford e veja se você está focado nas informações relevantes

As distrações por conta disso podem levar a consequências graves, desde acidentes de trânsito provocados por motoristas nos celulares como dificuldades de concentração e perda de criatividade, prejudicando o trabalho e a vida familiar.

Enquanto milhares de pessoas defendem que ser multitarefário as torna mais produtivas, as pesquisas vão na mão contrária. Os cientistas defendem que ter que dar conta de um acúmulo de funções causa problemas de concentração, dispersam o foco, faz as pessoas darem maior relevância a informações sem importância e gera um estresse enorme.

Os cientistas descobriram ainda que mesmo depois de desconectados, o pensamento continua fragmentado e a falta de foco persiste.

- A tecnologia está remodelando nosso cérebro – explica Nora Volkow, diretora do Instituto Nacional de Abuso de Drogas e uma das cientistas que coordenaram o estudo. Sua equipe comparou a atração pelo mundo digital à estimulação provocada por comida e sexo, que são essenciais, mas contraprodutivas em excesso.

O uso da tecnologia pode beneficiar o cérebro de várias maneiras, dizem os pequisadores. Quem usa a internet, por exemplo, torna-se mais ágil na busca por informações. E jogadores de videogames desenvolvem maior apuro visual. Além disso, celulares e computadores transformaram a vida. Eles deixam as pessoas trabalharem com mobilidade, aproximam distâncias e dão conta de uma série de tarefas rotineiras. Para o bem ou para o mal, o consumo desse tipo de mídia explodiu: em 2008, as pessoas já consumiam três vezes mais informações do que faziam em 1960. A interatividade “nonstop” é uma das mais importantes mudanças comportamentais, garante Adam Gazzaley, neurocientista da Universidade da Califórnia, em São Francisco:

- Expomos nossos cérebros a um meio e demandamos dele o tempo todo tarefas que não temos certeza se são ou não necessárias. Sabemos que isso tem consequências.

Os cientistas defendem que ter que dar conta de um acúmulo de funções causa problemas de concentração, dispersam o foco, faz as pessoas darem maior relevância a informações sem importância e gera um estresse enorme

Em casa, as pessoas consomem em média 12 horas por dia entre o computador, iPhones e TV. Simultaneamente, gastam duas horas. Em 1960, eram cinco horas, segundo informações de pesquisadores da Universidade da Califórnia, em São Diego.

Assim como os computadores mudaram, ocorreram transformações nos cérebros. Até 15 anos atrás, cientistas acreditavam que o cérebro parava de se desenvolver após a infância. Agora, eles entendem que o desenvolvimento continua, dependendo dos estímulos.

O cientista Eyal Ophir chegou a Stanford em 2004, tentando provar que as multitarefas poderiam estar transformando o cérebro, que até então, acreditava-se, era capaz de processar uma informação de cada vez. Ele criou um jogo comparando testes ao formar dois grupos – aqueles classificados como multitarefários e usuários de tecnologia no dia a dia e aqueles que não mexiam com computadores. No jogo, eles criaram uma imagem com retângulos vermelhos. Depois, mostravam uma imagem similar perguntando se os retângulos vermelhos tinham se movimentado. Era um teste simples, mas na segunda imagem houve a adição de retângulos azuis na tela. Os multitarefários tiveram um desempenho muito pior do que o outro grupo, porque não conseguiram descartar a informação irrelevante: de não considerar os retângulos azuis.

Outros testes em Stanford mostraram que os multitarefários tendem a procurar por novas informações ao invés de priorizarem dados já disponíveis e mais relevantes para trabalharem.

Fonte: O Globo com The New York Times

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Postado por Rodrigo Seco em 07/06/2010
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