A tecnologia quebra recordes no esporte (Parte V – A bola e o futebol)

A bola e o futebol

O futebol, ou “bola jogada com os pés”, consiste em conduzir uma bola até o interior do retângulo formado por balizas defendidas pelo time adversário. Cada vez que isso acontece, a equipe conquista um ponto, popularmente conhecido como gol. Ganha o jogo a equipe que conquistar mais pontos. O jogo é jogado por duas equipes com onze jogadores cada, com os objetivos de defender sua metade do campo e avançar até o gol adversário em dois tempos de quarenta e cinco minutos, mais os acréscimos do juiz.

É difícil de acreditar como um jogo que reúne apenas dezessete regras foi capaz de conquistar adeptos ao redor do mundo. Essa popularidade pôde ser comprovada durante a final da copa do mundo na África do sul, quando a Espanha se consagrou campeã em cima da Holanda, onde, segundo dados da própria FIFA, mais de um bilhão de pessoas acompanharam o jogo em todo o mundo. São números que impressionam e demonstram o poder desse esporte.

Muitos analistas acreditam que a fórmula desse sucesso está na manutenção das origens. Talvez seja por esse motivo que a federação internacional sempre se esquivou quando o assunto foi o uso da tecnologia. Em certos aspectos, o futebol de anos atrás pode ser considerado como o mesmo, ao jogado nos dias de hoje. Principalmente quando observamos friamente as regras do jogo, a estrutura e o uso da tecnologia. Mesmo assim, as quando assistimos a um jogo do meio do século passado e comparamos com um atual, percebemos diferenças consideráveis na forma de se jogar futebol e características físicas muito diferentes. Então, como justificar tamanha evolução?

Interesses no futebol

Se analisarmos as últimas mudanças no futebol realizadas pela FIFA, verificamos que os objetivos originais foram alcançados. Muitos afirmavam que o esporte era lento e precisa ganhar em “emoção”. Acreditava-se que um jogo mais dinâmico traria maior probabilidade de gol e proporcionaria mais lances bonitos. O ideal era tornar mais objetivo, que pudesse agradar nações que viam no futebol pouca emoção em noventa minutos e poucos gols. Por exemplo, imagine como o futebol pode ser visto por muitos americanos, tão acostumados com as pontuações centenárias no basquete.

Também é igualmente visível o quanto o crescimento do futebol pelo mundo movimentou os bastidores do esporte e a forma que é visto pela sociedade. Do profissionalismo ao marketing, o futebol hoje é um dos produtos mais valiosos no mercado mundial e interfere em interesses políticos e econômicos. Umas das tarefas mais difíceis da FIFA nos últimos anos têm sido orquestrar os conflitos de interesses e buscar acompanhar a evolução da sociedade sem que isso prejudique o espetáculo. Mesmo assim, é preciso considerar que o mundo se transforma e o futebol precisou aprender a conviver com as novidades do mundo contemporâneo.

Tecnologia no futebol

Nunca em uma copa do mundo houve tantos erros de arbitragem e críticas a não utilização de recursos tecnológicos como a da África do Sul. Diante de tantos momentos polêmicos, pela primeira vez, a FIFA admitiu rever da decisão de não utilizar a tecnologia durante as partidas. Para muitos, a utilização de imagens em momentos polêmicos poderia pôr fim as dúvidas e auxiliar os juízes na aplicação das regras. Mesmo assim, alguns defendem a idéia de que a dúvida promovia o esporte. No dia seguinte ao jogo, os lances polêmicos eram os assuntos preferidos e essa emoção tornava o esporte mais querido. De certo modo, há uma preocupação indireta de que os recursos tecnológicos podem tornar o jogo ainda mais frio aos olhos de quem assiste e, diretamente, acredita-se que as pausas durante o jogo podem tornar o jogo ainda mais lento.

Não querendo entrar nessa polêmica, podemos aqui fazer outro tipo de análise. Até aqui vimos que o futebol é capaz de movimentar meio planeta, exerce influência na economia mundial e na política de países com diferentes regimes e culturas. Acredito que todo esse interesse exerça algum tipo de compromisso, que possa garantir a todos que investe um mínimo de seriedade e resultados condizentes a partir dos cenários definidos na regra do jogo. Visto por esse ângulo, me questiono as motivações que fizeram o esporte mudar a tal ponto de enxergamos na utilização da tecnologia como a melhor solução para a aplicação correta das regras em um jogo que sempre foi bem conduzida por juízes distribuídos pelo campo. Será que realmente esse seria o melhor e único caminho? O que foi determinante para que o futebol mudasse tanto e chegássemos a esse ponto?

Entendo que pode parecer estranho, mas tudo me leva a crer que a bola é a principal responsável por toda essa polêmica que hoje envolve o futebol. Visto pelo lado técnico, foi o objeto que mais sofreu modificações desde a criação desse esporte. Impulsionado pela concorrência de material esportivo, sempre se buscou a concepção de uma bola idealizada como perfeita: leve, sem atrito e, curiosamente, redonda. A cada ano que passa, novas características são atribuídas e mais pesquisas revelam como deverá ser a bola ideal. São apresentados novos materiais, métodos de fabricação revolucionários e até detalhes imperceptíveis que vendem como o símbolo de uma nova era.

A evolução da bola de futebol durante as copas do mundo

Contudo, uma bola mais leve, geometricamente perfeita e com menor atrito encontra a tão velocidade desejada para um jogo de futebol objetivo e ágil. Um mundo perfeito em uma bola que chega a manter o peso até em dias chuvosos, isso se não fosse às conseqüências dessas escolhas. O que acontece quando a bola passa a correr mais que os jogadores em campo? Agora, esse precisa possuir um porte físico diferenciado para suportar o novo estilo de jogo. Conseqüentemente, estará mais sujeito a lesões e as partidas passarão a ter mais violência. Para os juízes, será mais complicado acompanhar a velocidade da bola. Casos mais polêmicos serão mais constantes, principalmente os que envolvem impedimentos e em que seja difícil verificar se a bola cruzou a linha do gol ou não. Enquanto em décadas atrás o jogador podia conduzir a bola e seu talento no drible era o diferencial, hoje em dia o jogador é lançado e precisa ter velocidade e força para conseguir alcançar a bola. Agora é a vez dos cruzamentos, gols de cabeça, de falta e longas distâncias, além de contra-ataques rápidos.

Seleção de 1970

Não precisa ser um especialista para perceber que até o porte físico dos jogadores é outro. Acostumados com jogadores baixos e magros, mas habilidosos, hoje está difícil encontrar jogadores que não sejam fortes e com boa estatura, portes antes apenas visto em outras modalidades como o Atletismo. O futebol deixou de ser um jogo que priorizava a habilidade e a inteligência e passou exigir mais da força e do vigor físico dos jogadores. Seja por seleção natural ou apenas escolha dos técnicos, a realidade é que o futebol está sendo reinventado. Todas essas características refletem um jogo cada vez mais feio e violento, o que vem gerando inúmeras críticas, principalmente, de jogadores consagrados, tão acostumados e fascinados por outro estilo de jogo. Se esse processo continuar, vejo que o campo da tecnologia deverá pensar em outros acessórios de proteção para os jogadores, semelhantes aos usados no futebol americano. O fato é que podemos perceber que nunca se viu tantos jogadores lesionado e com fraturas graves.

Confesso que sou um fã de futebol e costumo praticar pelo menos uma vez por semana. Mas todas essas novidades me deixam um pouco confuso. Sempre procuro ponderar os meus pensamentos e não deixar as minhas opiniões no centro das minhas reflexões. Mas, nesse caso, me posiciono como público, que aguarda ansiosamente pelo espetáculo. Muito mais que torcer pela vitória do meu time, gosto de lances polêmicos, bons dribles e grandes jogadas. Mas não tenho a resposta quando me questiono a quem interessa esse novo futebol? Qual seriam os benefícios que uma bola mais ágil trouxe ao futebol? Em que, nesse caso, a tecnologia foi útil para o desenvolvimento do esporte?

Alegria no futebol

Deixo essa reflexão aos leitores, mas esse exemplo demonstra claramente que uso da tecnologia precisa ser sempre racionado. Hoje nos surpreendemos com as novidades e as facilidades apresentadas pela tecnologia a todo o momento, mas esse fascínio, muitas vezes, se transforma em domínio e até vício. Onde em um ambiente corporativo o diálogo é trocado pelo e-mail e as reuniões com amigos são feitos em chat, precisamos estar atentos que agimos a partir das necessidades a todo o momento. Porém, muitas vezes, essas surgem a partir de uma escolha, onde antes não se faziam necessárias. Acredito que exatamente isso vem acontecendo com o futebol, aonde as escolhas erradas na escolha das características da bola vêm levantando novas necessidades até então não observadas. Não gostamos de assumir posicionamentos atrás e, geralmente, optamos em seguir por caminhos complexos, onde é preciso sempre construir novos conceitos em busca de correções criados por decisões anteriores, quando apenas uma revisão poderia ser a solução definitiva.

Volto ao questionamento levantado na primeira parte dessa série, onde se buscava um limite ideal entre o fascínio e o uso da tecnologia no esporte. O esporte não pode se tornar refém da tecnologia a qualquer custo e procurar um equilíbrio sadio entre a utilização desses recursos, sem que isso prejudique a competitividade e todas as características que fizeram do esporte um dos espetáculos mais desejados pela sociedade.

A paixão da sociedade pelo futebol

Na verdade, é inútil questionar a capacidade da tecnologia em atender as atuais necessidades do “novo” futebol. Além de ser utilizada por diferentes esportes com resultados positivos, a evolução da sociedade é algo que precisa ser aceita sem traumas ou preconceitos. O processo natural da evolução nos ensina que o ciclo do aprendizado parte de uma necessidade clara às adaptações da sua solução. Seria leviano imaginar um pensamento definitivo, mas é necessário refletir o melhor ponto de partida.

Ao futuro do futebol, me preocupa mais as motivações que nos fizeram crer sobre a necessidade do uso da tecnologia. Não parte apenas da lembrança da existência dos recursos avançados ou da ideia de se alcançar melhores resultados, mas a partir de situações polêmicas. Onde é possível concluir que o futebol vem perdendo em emoção e identidade. Será que a tecnologia é o ingrediente principal que o futebol precisa para se desenvolver?

O balanço da copa de 2010 nos fez acreditar que muito precisa ser revisto. De um lado, é preciso resgatar o brilho do espetáculo. Já do outro, procurar utilizar técnicas que permitam a aplicação das regras com mais precisão, para que desgastes, como vistos durante a competição, não prejudique sua imagem. Se pensarmos bem, é curioso como o futebol pode ser considerado como um dos poucos esportes, de baixo custo, onde se mantém uma acessibilidade capaz de unir baixinhos talentosos com altos brutos sem perder a qualidade no jogo. De fato, esse debate merece toda a nossa atenção, mas é preciso ter em mente sempre que, muito mais que um esporte, o futebol é uma das maiores paixões da sociedade.

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Postado por Rodrigo Seco em 14/07/2010
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1 Comentário to A tecnologia quebra recordes no esporte (Parte V – A bola e o futebol)

  1. Eu adoro jogar futebol sou o craker do meu time.

  2. gabriel batisat de sousa em 10/12/2013

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