O preconceito

Discriminação

Discriminação

Além da era da informação e do desenvolvimento sustentável, percebo que estamos passando por uma fase de reconhecimento social. Aliás, se levarmos em consideração a história da sociedade, talvez nunca estivemos com essas questões bem resolvidas. Os principais conflitos e revoluções foram motivados pela bandeira do preconceito e da intolerância, onde o mais forte buscou a prevalência das suas ideologias sobre a dos considerados rebeldes, não puros ou inferiores na raça e no desenvolvimento humano.

Talvez nunca alcancemos esse equilíbrio social e estejamos condenados a conviver diante os conflitos entre os que se opõem ao sistema. Mesmo assim, vejo que mal sabemos definir exatamente o que seria “preconceito”. Porém, somente dominamos aquilo que compreendemos. Como dizia Sócratis, o reconhecimento da ignorância, é a base da sabedoria. Hoje em dia nos deparamos com tantos movimentos sociais condenando o tal preconceito que até comecei a pensar que talvez fosse algo muito ruim. Confesso que cheguei a pegar no mastro da bandeira para erguê-la na primeira fila, mas preferi refletir cerca desses novos movimentos e ideologias.

Diferenças

Hoje estava assistindo um programa de TV onde o tema principal era o preconceito social. Em ruas movimentadas das grandes cidades eram criados cenários controversos para que a reação das pessoas fosse analisada. De atores vestidos com roupas extravagantes, a casais do mesmo sexo se beijando, a repórter abordava os mais surpresos e fazia perguntas sobre os seus conceitos diante das situações, no mínimo, não tão convencionais. Não foi a reportagem que me chamou atenção, mas o medo que as pessoas tinham em admitir o seu sentimento de preconceito. Isso me fez refletir mais sobre esse tema.

Entendo que, para muitos, preconceito é uma indisposição, um julgamento prévio negativo que se faz de pessoas estigmatizadas por estereótipos. Sim! Fiz uma pesquisa rápida na internet e achei essa e outras definições a respeito. Para o Wikipedia, nossa enciclopédia colaborativa, é um juízo preconcebido, manifestado geralmente na forma de uma atitude discriminatória perante pessoas, lugares ou tradições considerados diferentes ou “estranhos”. Ainda assim, ao procurar uma fonte mais confiável, encontrei a seguinte definição:

pre.con.cei.to
sm (pre+conceito) 1 Conceito ou opinião formados antes de ter os conhecimentos adequados. 2 Opinião ou sentimento desfavorável, concebido antecipadamente ou independente de experiência ou razão. 3 Superstição que obriga a certos atos ou impede que eles se pratiquem. 4 Sociol Atitude emocionalmente condicionada, baseada em crença, opinião ou generalização, determinando simpatia ou antipatia para com indivíduos ou grupos. P. de classe: atitudes discriminatórias incondicionadas contra pessoas de outra classe social. P. racial: manifestação hostil ou desprezo contra indivíduos ou povos de outras raças. P. religioso: intolerância manifesta contra indivíduos ou grupos que seguem outras religiões.

Quem sou eu para questionar o “MICHAELIS“? Antes de qualquer coisa, em nenhum momento eu fui a favor ao preconceito. Mas confesso que essas definições me assustam em vários sentidos. Em primeiro lugar, o preconceito é desenhado como um sentimento perverso e motivador de conflitos sociais. Isso me preocupa e me faz ter receio com as consequências e por quais caminhos esse movimento pode nos levar.

Observando as diferenças

Não convido ninguém a sustentar a ideologia do preconceito, mas não acredito que esse seja o real vilão dessa história. Aliás, gostaria de conhecer uma pessoa desprovida de ideologias preconceituosas. Ousaria a dizer que aprendemos esse sentimento na família, religião e na escola. Ainda mais, desde quando nascemos somos condicionados a uma cultura, tradição, costumes e hábitos tendenciosos e “aceitos” pela sociedade. Na verdade, seguindo a mesma linha, posso dizer que a origem do preconceito está àqueles que se opõem a seguir determinados padrões. Por fim, ainda há leis que direcionam e sugerem determinadas condutas socialmente aceitas. Recentemente o governo chegou a pontuar sobre a não permissão de determinadas práticas na educação infantil.

Estereótipos sociais

Agora, já formado, crescido e baseado em princípios primitivos ditados pela própria sociedade, querem me fazer acreditar que tudo aquilo era mentira e não passava de uma conspiração dos “fortes” sobre os mais “fracos”. Hoje sou induzido a aceitar diferentes atitudes de grupos que buscaram outros caminhos, nem sempre de acordo com os “parâmetros” ou as regras sociais. Mesmo assim, quando não concordo com tal violação, sou classificado como preconceituoso. Por quê? Alguém me perguntou o quanto sei sobre determinado assunto? Ou somente os benevolentes possuem o conhecimento necessário? Confesso que, algumas vezes, cheguei a senti um certo preconceito daqueles que optaram por caminhos “alternativos” por não aceitar os seguir.

Como já disse, não sou contra ou a favor do preconceito. Mas foi esse sentimento que me fez crescer, formar opiniões, criar um “bom senso crítico”, aprender e evoluir dentre os meus pensamentos. Se preconceito é crime, não mais poderemos estudar o comportamento chinês sem antes visitarmos Pequim e vivenciarmos seus costumes. Dizem que os orientais costumam arrotar após uma boa refeição. Sendo assim, devemos aceitar até os que cospem em nossas caras? Ou ainda, talvez precisems tomar um porre de cerveja ou consumir drogas até cair para termos as nossas ideologias sobre os jovens “modernos”. Semana passada, o Irã condenou a morte, à pedradas, mulheres infiéis. Segundo os meus preconceitos, formados por cultura, religião e política a partir do ambiente que vivo, não considero um ato correto. Apesar de que, às vezes, pensamos em matar por traição. Talvez eles saibam extravasar de forma constitucional esse sentimento primitivo.

Nossa educação

No meu conceito, ou preconceito, a ideologia faz parte da vida. Aprendemos sobre aquilo que vivenciamos, ouvimos, lemos, estudamos e, mais que isso, nos inspiramos nos costumes gerais da sociedade ou do nosso meio. Somos induzidos a acreditar em determinados padrões e direcionados a seguir caminhos ditos como adequados ou esperados. Faz parte da natureza humana, em uma vida em sociedade, seguirmos regras e padrões, que, impreterivelmente, são determinadas e aceitas pela maioria. Essa é a tendência natural e a forma que encontramos para viver em paz e harmonia. Esses formam a base dos critérios utilizados para avaliação de uma conduta. São essas filosofias que dominam os nossos limites e paixões. Somos guiados nessas emoções e utilizamos de todos os meios oferecidos ao nosso redor para criá-los e tirarmos proveito desses conhecimentos.

Criando limites

Muito mais que em qualquer outro momento da história da humanidade, o acesso a informação pode nos garantir conceitos sem os “prés”. Talvez essa seja a oportunidade para que, muitos que optaram por caminhos não convencionais, apresentem os seus argumentos e não sejam discriminados. Contudo, a luta contra esse preconceito esbarra em uma sociedades embaladas por princípios milenares, baseados em experiências desagradáveis e estereótipos que provocam ainda mais a resistência e a antipatia a essas tribos alternativas. Muitas vezes, são os exemplos que dificultam e impedem que certas ideologias sejam bem vistas.

A manifestação desses que optaram pela resistência ao “comum” deveria ser pautada pela comunicação e disseminação do conhecimento. Daquilo que julgarem pertinente e estiverem alinhados a uma aceitação por mérito. Algo que demonstrasse que a repúdia social não teria sentido e pudesse ser superada por princípios que possa trazer benefícios a sociedade. Vale ressaltar que, seja qual for a ideologia, de massa ou alternativa, as regras sempre se farão presentes. Toda a sociedade de sucesso se limitou por conceitos rígidos e disciplina dos seus integrantes. Já as que buscaram se anarquizar e acreditaram no bom senso dos homens faliram ou foram vítimas do seu próprio sistema.

Não aceito

Quem sabe não possa sofrer de preconceitos? Hoje estou bem acima do meu peso “ideal”. Os meus pais se preocupam e criticam a minha postura. No médico, sou informado que se não emagrecer posso contrair uma doença. Mas o meu chefe disse que se não trabalhar além do horário, posse ser demitido. Como trabalhar com informática não é lá muito aeróbico, às vezes chego a pensar em rebelião, mas os meus pais costumam dizer que é preciso resistir e voltam a criticar a minha postura.

Percebo que sou uma pessoa bastante sociável. Tenho amigos de diferentes religiões, raças, culturas, visões políticas, entre muitas diferenças ou preconceitos. Outro dia, a irmã de um grande amigo de infância veio me confessar que era homossexual e precisava de dicas sobre a melhor forma de se declarar. Disse pra que ela demonstrasse o seu valor e demonstrasse a sociedade que, apesar da sua opção, não haveria qualquer impedimento para ser aceita, independente da sua escolha. Tal como no filme “A Bela e a Fera”, o desconhecido traria medo as pessoas, mas ela deveria ter paciência e oferecer segurança em troca de carinho e confiança. Antes que ela posse em prática os seus planos, aconselhei para que não pautasse a sua vida em conflito com a sociedade. Seria uma luta sem causa específica, onde o inimigo seriam aqueles que ela gostaria de ter como aliados. Era necessário fazer, de sua opção, um exemplo para que todos os preconceitos pudessem ser revistos e que, a partir de suas opções, o mundo enxergasse naturalmente que certas opções poderiam ser aceitas sem qualquer dano a sociedade. Na verdade, o mundo sempre funcionou dessa forma e as lutas populares, constantes na convivência da humanidade, contam a história do preconceito social.

Somos iguais

Para mim, o preconceito faz parte de nossa essência animal. Ele está em tudo que pensamos e imaginamos. A partir de nossas experiências somos capazes de criar conceitos e limites. Talvez seja bastante compreensível vítimas de estupros com medo dos homens ou sobreviventes de acidentes aéreos preferirem viajar de ônibus. Talvez estejamos na hora de repensar a intolerância e a discriminação, cultivarmos o senso crítico e nos apresentarmos dispostos a ouvir opiniões e pensamentos contrários ao nosso. Não há evolução sem debate de ideias e o respeito deve ser priorizado nas relações humanas, seja conservador ou alternativo.

Por fim, lembro de uma experiência interessante que tentou justificar a briga milenar entre judeus e palestinos. A briga continua e a razão se mantém no coração das duas nações, mas a verdadeira causa de tanto preconceito e intolerância se perdeu no tempo. Reuniu-se em um quarto, dez macacos. Todos os dias eram colocados um cacho de banana no meio do salão. Porém, todas às vezes algum macaco tentasse pegar uma banana, todos levariam choque em uma argola presa em seu corpo. Após algum tempo, percebeu-se que assim que um dos macacos se dirigia para as bananas, os demais o impedia e, muitas vezes, a iniciativa terminava em briga. Foi ai que os cientistas começaram a trocar os macacos gradativamente. Porém, os novos inquilinos não contavam mais com a argola de ferro presa em seu corpo. Mesmo assim, todos mantinham a rotina de brigar quando algum deles se dirigia as bananas. Até que se verificou que o comportamento “criado” se manteve mesmo quando todos os macacos já haviam sido trocados. Eles não sabiam os motivos da briga, mas já fazia parte da “cultura” do grupo esse comportamento agressivo.

Unidos pelo bem da sociedade

Talvez nada possa justificar ou amenizar as consequências da intolerância ou do preconceito social. Devemos combater atitudes que classificam as pessoas socialmente por atributos que não levam em conta o caráter ou a lealdade. Talvez devêssemos direcionar melhor nossas ações e perspectivas sobre a luta contra o preconceito. Não busco que os leitores concordem com todos os argumentos expostos, mas a sociedade precisa se manter disposta a novos reconhecimentos. Canais como esse são oportunos para expor reflexões e aperfeiçoar conceitos. No fim, não é correto nos limitarmos a atribuir os nossos fracassos aos líderes e representantes, mas assumir, em nossas ações, responsabilidades como formadores de tudo que acontece em nossa sociedade.

Outras leituras:
Vida preconceituosa
Preconceito, como conviver com ele?
Uma doença chamada preconceito
Preconceito no mercado de trabalho

Postado por Rodrigo Seco em 18/08/2010
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4 Comentários to O preconceito

  1. aff e cada porcaria

  2. aiaaiaiai em 23/05/2012
  3. Adorei sem texto! Achei super criativo e interessante. Estava procurando um texto que falasse mais sobre o preconceito para que eu pudesse finalizar uma redação, e eu achei seu texto super completo! Agradeço por compartilhar seu conhecimento e sua opinião. Obrigada, beijos. Maria Carolina Stutz.

  4. Maria Carolina em 28/10/2012
  5. A visão a qual expôs é de tamanha riqueza que, me fez repensar conceitos formados durante parte da minha vida pelos esteriótipos de nossa sociedade. Não que algum preconceito me faça agredir física ou verbalmente pessoas que se diferem de mim em vários aspectos, mas vou pensar várias vezes antes mesmo de formar uma ideia sobre a opinião, cultura e opções alheias. Visarei o “preconceito bom” esse que forma opiniões.

  6. Victor em 06/03/2013
  7. [...] da imagem: http://www.quintalvirtual.blog.br Share this:TwitterFacebookCurtir isso:Curtir [...]

  8. Preconceito 2 | Mente Rude em 02/04/2013

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